terça-feira, junho 05, 2007

Sentá-los é essencial


Agora fala-se muito em eduquês, termo para o qual não há uma definição minimamente rigorosa, tratando-se antes de uma expressão panfletária, pelo que, pessoalmente, não me interessa de forma particular discuti-la, confesso.
Admito que o inventor do termo em Portugal seja, ele próprio, um membro da "congregação eduquesa"(permitindo-me também ser um bocadinho panfletária). Digo isto porque, imediatamente a seguir a ter "despachado" a tese de doutoramento, a primeira coisa que li foi o "Difícil é sentá-los", em que o autor comenta numa superioridade cujo fundamento se desconhece e é, portanto, injustificado e altivo, a frase da uma professora do 1º. ciclo, que o senhor terá ouvido enquanto ministro.
Acontece, todavia que o conceito é essencial, sentá-los é essencial, porque é sentados que eles começam a adquirir um pensamento organizado e estruturado, porque a instrução tem de ser deliberada, intencional, sistemática e de forma a que os conhecimentos dos alunos fiquem muito organizados, pois só com base em conhecimento se constrói novo conhecimento e podem então ser trabalhadas competências cognitivas superiores de aplicação, análise, síntese e avaliação.

A aprendizagem requer em esforço, concentração focalização, atenção, disciplina e método. Nada do que acabo de afirmar é negado por Piaget ou por Vygotsky, figuras essenciais para a construção de um pensamento pedagógico rigoroso.

4 comentários:

PJ disse...

"Enquanto em alguns países da Europa o "eduquês" e as hordas das "ciências da educação" batem em retirada, deixando para trás gerações inteiras equipadas com "competências" mas desprovidas de saber, entre nós floresce a "selva oscura" do "aprender a aprender"."

Excerto de um texto retirado do blogue De Rerum Natura (http://dererummundi.blogspot.com/)onde escrevem pessoas muito respeitáveis do meio académico. Saliente-se a linguagem de pendor simbólico com óbvias ressonâncias guerreiras.
Por que é que quando se discute educação indivíduos objectivamente cultos, pelo menos na sua área científica, regridem a este nível e usam este tipo de discurso?

Paideia disse...

PJ,
Pois, não conheço o referido blogue, mas se diz que são respeitáveis, não vejo porque negá-lo.Irei procurar estabelecer o meu juízo individual a seguir.
Pessoalmente não partilho muito dessa linha das competências. Mas como costumo pensar pela minha própria cabeça, concedo que, em situações específicas são úteis, em termos pragmáticos.
Quanto a "regressões", não sei bem se o são:
1º. Já desisti do mito kantiano de pensar que as pessoas cultas são superiores. Pensar criticamente exige competências que não são exclusivamente cognitivas. Para pensar criticamente, é necessaria uma dimensão ética e volitiva. Não creio que no meio universitário essa dimensão ética exista em maior grau que no resto da sociedade.
2º. Por outro lado, tenho visto pessoas justamente desse meio que se arrogam o direito de falar sobre o que não sabem. Justamente porque se consideram superiores. Ora, o grau de especialização a que se chegou não permite que sejamos todos o Aristóteles cá do síto. Mais humildade intelectual não nos faria mal.
3º. Onde falta a profundidade de análise, sobram as bordoadas.
4º. As grandes polémicas da história da nossa cultura pouco mais são que arraiais de cacetada. E todavia, são protagonizadas por pessoas "muito respeitáveis". A nossa capacidade de pensar é que é o que é.

Andreia Videira disse...

Estou completamente de acordo consigo... Para que consiguam aprender é necessário, é essencial que estejam sentados comodamente/correctamente para que se consiguam se concentrar sem grandes agitações...

Paideia disse...

Bem haja pelo seu depoimento, Andreia.