sexta-feira, março 28, 2008


Do clima da sala de aula

O que é que se vai passar aqui?

Quando entram pela primeira vez na sala de aula, os alunos fazem uma leitura rápida do ambiente e passam às respectivas inferências:

O que é que se vai passar nesta sala?
Há regras?
A professora vai dar conta do que aqui se passa?

Esta primeira percepção do professor e do ambiente da sala de aula fica indelevelmente gravada na mente de cada aluno e transforma-se numa variável susceptível de ajustamentos, para se conseguir uma maior disciplina e controlo da sala de aula.

Consequentemente, durante os primeiros dias de aulas, qualquer docente deve procurar estabelecer de imediato as regras de disciplina e de gestão da sala de aula, de forma a dar aos alunos a indicação de que sabe lidar de forma positiva com os problemas da indisciplina.

Deste modo, é sempre bom e prudente começar com critérios um pouco mais apertados e aliviar um pouco o controlo, à medida da nossa percepção da dinâmica social da turma.

A professora vai progressivamente ganhando a percepção de quantos ou quais os alunos vão querer dominar a sala de aula, de quantos e quais os alunos que mais rapidamente se aperceberão do seu gosto e entusiasmo e de como estes se reflectem na atmosfera que se vai criando.

Um aspecto a que os alunos dão muita atenção é ao nosso sistema organizativo, pelo que devemos dar a impressão de que registamos tudo, temos rotinas e regras, de que chegamos à aula a horas; é certo que eles estão atentos a todas as nossas inconsistências e é humano que as aproveitem sempre que possam: se verificamos trabalhos de casa todos os dias, se temos uma rotina de verificação de cadernos, se somos consistentes quanto aos critérios relacionados com empréstimos de material escolar, a organização do espaço de trabalho. Nada de "bagunça" em cima das mesas, incluindo todos os "gizmos" que eles trazem para a aula e que devem ser os primeiros a marchar para dentro das mochilas. Em cima das mesas o estritamente necessário; nem os livros da aula anterior devem lá estar.

Algo a que os alunos, mesmo os mais novos, prestam também muita atenção: à forma como organizamos o nosso trabalho e o nosso espaço e até aos nossos materiais (têm sempre muita cusiosidade pelas minhas bolsas de lápis e canetas crochetadas, mesmo os do 9º. ano; há meninas que já me vêm mostrar as suas primeiras experiências em crochê); também estas nossas rotinas são modeladoras. Qualquer fragilidade vai ser utilizada para as justificações mais surrealistas; se tem de usar uma forma de temporizar os tempos de uma aula em que tal é necessário, esclareça que vai utilizar um marcador auditivo que será o único ou encarregue um aluno mais responsável de o fazer. Estabeleça sempre que vai haver um único temporizador a fazer-se ouvir.

Um conjunto de cinco a sete regras essenciais deve estar visível e acessível: afixadas de perferência, nos cadernos, sempre.

Nos trabalhos de grupo, tenda a organizar grupos pequenos (no máximo de 5 alunos, estabeleça procedimentos, tempos de execução e produtos a apresentar. Nomeie um líder para cada grupo. Forme tendencialmente grupos heterogéneos: os alunos mais fracos ganham com esta forma de organização, a responsabilidade multiplica-se, porque todos são responsáveis pelo bom funcionamento da aula.

Não hesite em estabelecer meios de controlo, tais como registos de observação, para os mais variados aspectos: trabalho de casa, número de lição e data no quadro, arrumação da sala. Utilize os delegados para serem eles a estabelecer as rotinas e a distribuir as tarefas. Exija que sejam cumpridas.

Esqueça a treta de que lhe falaram, em acções de formação mal amanhadas, de que a sala de aula pouco se modificou ao longo dos tempos. Eu também as ouvi, já no mestrado, pelo qual paguei bom dinheiro. Saíram pelo ouvido direito à mesma velocidade com que entraram pelo esquerdo. Pense pela sua cabeça; também os médicos, por mais tecnologia que utilizem, têm de se debruçar sobre os seus pacientes para os examinar e operar. Um médico da Idade Média reconheceria sempre uma relação médico-paciente; com os professores é igual.

Exija sempre um comportamento adequado. Quem não consegue tê-lo, vai ter que ser enviado ao centro de saúde ou à saúde mental.

Não tenha medo de que os alunos o considerem exigente e um tanto "difícil". Tal como é preferível um pai "difícil" a um pai ausente, também é preferível um professor "musculado" a um professor que não sabe muito bem o que fazer e quando.

Utilize a caderneta com parcimónia e, preferencialmente, no início do ano. Se o encarregado de educação não se mostra colaborante, comece a marcar faltas: de atraso, de trabalho, as que forem necessárias, tantas quantas forem necessárias. Se for preciso fazer um exame, faz-se, mas não perdemos tempo que é precioso para alunos que querem aprender e ser bons estudantes: é uma vantagenm que vai beneficiar justamente aqueles para quem a educação e a instrução são uma mais-valia importante.

A forma como é que o docente quer ser visto pelos seus alunos deve reflectir-se na sua indumentária. Não estranhe, nem pense que já ninguém presta atenção a esses pormenores. Os últimos acontecimentos provam que até o que veste pode ser utilizado contra si. Não procure ser um docente bonzinho, seja um bom professor.

Está criado um ambiente propício à aprendizagem, à inovação e à reflexão na acção. Não se esqueça de que os portugueses confiam mais em nós do que nos políticos e que estes vêm e vão e nós ficamos. Erga a cabeça. Faça aquilo de que gosta e goste daquilo que faz.

E que tenhamos todos um terceiro período bem produtivo. Há incidentes críticos que devem ajudar-nos a corrigir trajectórias.

(esta é também uma mensagem para aqueles que não gostam, nem acham útil descrever o que se passa dentro de uma aula)

12 comentários:

Stôra disse...

Adorei ler este texto! Estes, foram alguns dos ensinamentos que a minha orientadora de estágio me deu (já alguns anos). São bastante úteis; é sempre bom relembrá-los. Identifico-me muito com tudo quanto escreveu :) Os meus alunos, na sua grande maioria desregrados, costumam dizer, muito arreliados: "bolas, é só regras, é só regras!". Mas na verdade, tenho sido eu quem tem "domado as feras" na ausência da D.T. titular.
*Beijinhos*

Paideia disse...

Olá stôrinha!



Gostar do que se faz e gostar de gostar daquilo que se faz.
Beijinhos e bom 3º. período.

papoilasaltitante disse...

Gostei muito! Normalmente também não tenho problemas com os alunos e os que tenho, resolvo prontamente muito graças à aplicação da metodologia por si descrita.
Ainda este ano no inicio do ano lectivo um E. E. após lhe ter enviado um a mensagem na caderneta a dizer que o seu educando não cumpria as tarefas que lhe eram propostas, respondeu-me de forma arrogante exigindo (e muito bem - a exigência não a forma como se dirigiu a mim) que lhe dissesse exactamente quais (talvez esperando que eu não mantivesse registos do que se passa na sala de aula)os trabalhos que o aluno não tinha realizado. Peguei no caderno do referido aluno e aula por aula dei-me ao trabalho de assinalar tudo o que o miúdo não tinha feito. Resta dizer que esse encarregado de educação passa a vida a pôr em causa o trabalho de grande parte dos professores da turma. Comigo nunca mais se meteu… até hoje!

Bom 3º Período!

Nota: o que mais me chateia neste 3º período que se aproxima não é o trabalho que vou ter com os meus miúdos… esse não me assusta nada! O que me chateia é toda esta burocracia a que estamos sujeitos e sabe-se lá o que ainda está para vir nesta altura tão crucial da vida de uma ESCOLA.

Paideia disse...

Papoila saltitante, viva!

Pois é: no quadro, a seguir sumário,TPC: cala a boca aos mais "inteligentes", que normalmente são colegas...
Quanto à burocracia... pois... ver mesmo se é necessária. É que há aqueles que são mais burocratas que os ditos.
:)


Beijinhos e bom 3º. período.

Anónimo disse...

Parabéns! Adorei o seu comentário e deu-me alento para voltar ao trabalho.

3za disse...

Gosto muito de te ler...
Beijinhos e bom 3º P!

Paideia disse...

Anónimo,
Ainda bem, a intenção do comentário foi justamente essa.
3za, o gosto é mútuo, mas isso já tu sabes.


***

bell disse...

Muito assertiva, Padeia! Gostei. Faltou falar do reforço positivo, creio. Tenho reparado que turmas habitualmente indisciplinadas moderam atitudes quando valorizamos os resultados obtidos ainda que eles sejam mínimos.

Paideia disse...

Tens razão, Bell. És muito fina: não te escapa nada.Pensei nisso, de facto e acabei por esquecer-me: eu costumo fazer ums "awards" para o aluno da semana: o mais solidário, o mais isto o mais aquilo, e afixo-os juntamente com os picture dictionaries, os trabalhos de projecto, enfim, uma festa. Na segunda-feira vou preparar com eles as salas onde os directores de turma vão reunir com os pais, com os trabalhos deles por todo o lado.
Os trabalhos sobre a união europeia e os animais em vias de extinção ficararm Suuuuper! Estão na plataforma moodle, mas ainda não os pus aqui, com estas cenas que nos ensombraram a interrupção.

Anónimo disse...

Um belo texto, escrito com sabedoria e serenidade.
Filomena

Anónimo disse...

Podia esclarecer melhor o que entende por indumentária? Eu visto mais ou menos como o rapaz do anúncio do Cutty Sark (calças de ganga, ténis e t-shirt), mas uso bata na sala de aula, por questões práticas e de imagem/atitude. Está ok, na sua opinião? :)

Anónimo disse...

Sou pouco entendida em marcas, a bata é opcional.
:)))