domingo, dezembro 23, 2007



Toda a engenharia social começa na formação das turmas e na distribuição do serviço docente



Os interesses ligados ao ensino privado trouxeram para a ribalta estudos sobre a selecção de alunos nas escolas públicas, com base nas notas e no grupo social a que pertencem. É normal e expectável que reajam desta forma ao argumento de que as escolas privadas têm melhores resultados em virtude da composição social dos seus alunos.

Todos os docentes que já integraram direcções escolares tiveram de se confrontar com pressões, muitas delas vindas do interior do próprio sistema educativo, para aceitarmos alunos ou não os juntarmos a outros, considerados companhias pouco recomendáveis.

Quando entro naquela turma para fazer aula de substituição, noto como foi feita por encomenda. Pelos materiais e roupas de marca, os óculos de bom design, um menino negro para compor o figurino, sendo que nas minhas turmas que, a meu pedido, integram sempre crianças com necessidades educativas especiais, num mais reduzido número de alunos, a quantidade de meninos de cor é superior, invariavelmente o triplo.

As turmas glamour, como eu lhes chamo, têm naturalmente quase sempre os mesmos professores e entre eles estão os que fizeram as turmas e os que distribuíram o serviço docente e mais os outros, cuja companhia estes não dispensam, por qualquer razão.

Esta engenharia entra meticulosamente em funcionamento logo em Julho, com a formação das turmas, e é também minuciosamente articulada com a distribuição do serviço, ao mais ínfimo pormenor: nada é deixado ao acaso.

O preciosismo chega mesmo ao ponto de se colocarem estrategicamente em algumas turmas com professores mais "arredios" ou menos "domesticáveis", uns quantos alunos-toupeira, filhos de empregados domésticos ou de pessoal mais vulnerável. Imaginem que o dito professor quer mandar um recado "rápido" à direcção do estabelecimento: larga estudadamente o recado na turma e, no dia seguinte, aparece o resultado, a resposta, a reacção.

E todos nós fazemos de conta que não percebemos nada. São autênticas redes de informadores montadas com uma precisão milimétrica.

Toda a engenhearia social começa assim em Julho, quando os processos dos meninos chegam das escolas do primeiro ciclo, mas há escolas em que há um "tratamento" prévio, através do conhecimento directo dos casos. Esta engenharia permite, não só estabelecer as elites dentro da escola - reparem que em turmas de 20 alunos em que metade deles recebem auxílios económicos, as possibilidades de fazermos visitas de estudo ficam fortemente limitadas - mas também gerir as relações de poder no próprio agrupamento.

É por isso que não me importa muito se temos um director ou um conselho executivo. Seja qual for o sistema ao qual não é imposta uma rotatividade periódica (já aqui me referi a períodos máximos de 6 anos), a tendência para o abastardamento de princípios como os da justiça e da equidade (este conceito é provavelmente mais rigoroso que o anterior) aumenta na razão directa da sua longevidade e, consequentemente, a eficácia da escola diminui.

2 comentários:

FSantos disse...

Embora seja capaz de perceber (e até num ou outro ponto de me rever) no seu texto, parece-me que a sua visão é demasiado redutora.
É natural que o espaço de um "post" não permita uma análise suficientemente profunda.
No entanto, a diferença entre um director e um conselho executivo vai muito para além da possibilidade ou impossibilidade de haver rotatividade no exercício do cargo.
Enquanto presidentes de executivos e directores estiverem dependentes da confiança (funcional e/ou política) dos Directores Regionais, e através destes, dos Ministros da Educação, é de facto indiferente a nomenclatura.
http://reflexoes100pretensoes.blogspot.com/

Paideia disse...

FSantos, neste post apenas introduzi um elemento de análise a que voltarei mais tarde: o da liderança escolar e do seu peso na eficácia escolar. Este peso é controverso na investigação e está muito condicionado pela figura do director e do conteúdo funcional que cada sociedade atribui a esta figura; por isso, deixarei para mais tarde a análise desta variável.
Quem sabe, no próximo regime jurídico da liderança escolar em Portugal não virá a ser o sub-director a entidade parda do regime?
:)