terça-feira, dezembro 04, 2007

O PISA volta a pisar.

Os resultados do PISA revelam mais uma vez um mau desempenho dos estudantes portugueses em áreas tão importantes como a Leitura, a Matemática e as Ciências.
Este mau desempenho deve-se ao facto de muitos dos nossos alunos com 15 anos não terem tido um percurso escolar normal, já que as percentagens de repetência em Portugal superam largamente a dos restantes países da OCDE.
Na verdade, os alunos de 15 anos que têm um percurso escolar sem repetências até conseguem ter resultados acima da média.
A retenção revela-se assim uma forma ineficaz e contraproducente de regular a aprendizagem, como aliás a investigação sugere e já todos sabemos.
O Sr. Secretário de Estado considera que o sistema é disfuncional, mas conta com os planos de recuperação para ultrapassar esta dificuldade.E volta a responsabilizar os professores pela situação, considerando que estes não têm ainda a percepção de que a retenção é um fenomeno extremo e de último recurso.Esta interpretação do Sr. Secretário de Estado estará certamente fundamentada em dados recolhidos, em que foi constatada a ausência de planos de recuperação para os alunos em risco de insucesso; de outro modo, tal afirmação seria, mais uma vez, tendenciosa e desprestigiante para os professores.
Se fosse possível, seria de grande valia que o Sr. Secretário de Estado olhasse para o fenómeno sob uma outra perspectiva, de modo a determinar quantos alunos seguem os planos de recuperação estabelecidos e com que meios e estratégias se convoca e operacionaliza a responsabilização da família na execução de tais planos, que envolvem, não apenas ajudas da Escola nas matérias não aprendidas, mas estratégias de auto-regulação e de trabalho extra a executar pelos alunos e famílias.
Do que me é dado a perceber, e no que especificamente diz respeito a aulas suplementares, entre 20 a 30 por cento dos alunos não as frequenta, simplesmente porque não.
Pergunta-se aos alunos porque não frequentam as aulas e as respostas habituais são do género:
- Eu tenho aulas de tarde, as aulas suplementares são de manhã e o meu pai não me deu dinheiro para almoçar na cantina.
Ou ainda:
- A minha mãe prefere que eu vá à explicação.
Ou na variante mais modernista:
- Não venho às aulas suplementares, porque ando num Centro de Tempos Livres.
Ou outras desculpas do género.
Ora, a Escola não dispõe de meios - legais ou outros - para responsabilizar as famílias por esta situação e OBRIGAR os alunos a frequentar estes apoios.
São recursos humanos postos à disposição dos alunos com insucesso ou dificuldades escolares, que estes simplesmente desperdiçam.
Talvez se o Sr. Secretário de Estado - ou quem de direito - arranjasse uma forma de tornar obrigatória a frequência destas aulas para os alunos que delas precisam, começássemos a ver melhores resultados.
Porque por muitos defeitos, insuficiências, disfunções que o nosso sistema de ensino tenha, outra realidade é medianamente clara: os filhos de imigrantes, pese embora o esforço suplementar que têm de fazer para aprenderem o Português, têm bastante sucesso na nossa Escola.
É que há factores de sucesso e de insucesso que são bem mais críticos que a própria Escola. Em Portugal, como no resto do Mundo.

6 comentários:

Herr Macintosh disse...

No dia em que a tutela perceber que esta coisa do (in)sucesso é algo de complicado, com várias causas e, portanto com necessidade de uma estratégia integrada para a sua resolução, poderemos lançar foguetes. Muitos. Poderemos então fazer uma enorme festa. Até lá esperemos sentados para não nos cansarmos.

José Luiz Sarmento disse...

Os alunos portugueses com 15 anos, considerados na globalidade, têm resultados abaixo da média da OCDE. Má notícia, é claro.

Decompondo-se este universo entre os que estão e os que não estão no nível correspondente à sua idade, vê-se que os do primeiro grupo até obtêm resultados superiores à média: logo, a média é puxada para baixo pelos do segundo grupo.

Entende o Secretário de Estado que se os do segundo grupo fossem incluídos no primeiro por via do carácter excepcional da retenção, os resultados médios melhorariam. Não vejo como é que ele chega a esta conclusão: um aluno que não sabe baixa os resultados médios do conjunto, independentemente de estar retido no sétimo ano ou de estar já a frequentar o nono ou o décimo. Se não sabe, não sabe.

Atrevo-me até a especular que, a fazer-se o que exige o secretário de estado, os resultados não só não melhorariam, como haviam de piorar: a presença numa turma de um aluno que, por não acompanhar a matéria, se torna disruptivo prejudica a aprendizagem de todos os outros.

Acho bem que se reduzam as retenções, mas não enquanto estiver vigente a escola de modelo único que temos em Portugal. Se um aluno não aprendeu o suficiente no sétimo ano de escolaridade, deve passar para o oitavo - mas não para o mesmo oitavo, na mesma escola, para que transitaram os seus colegas.

Por mais que a lei queira obrigar os professores a estabelecer «estratégias de diferenciação» que obviem a necessidade de reter alunos, eles nunca o farão, e não o farão porque é materialmente impossível fazê-lo. Não se pode fazer de cada aluno uma turma, fazendo para cada um uma planificação diferente, uma leccionação diferente e uma avaliação diferente. Nenhum professor poderia ter a seu cargo 120 turmas unipessoais. Se se exigir diferenciação aos professores, eles vão fazê-la, sim - mas só no papel. Vão inventar um paleio qualquer para pôr nas actas e nos relatórios, e vão continuar a trabalhar como podem - isto é, e ressalvando uma ou outra diferença cosmética, como sempre fizeram.

A diferenciação não pode ser feita aluno a aluno, tem que ser feita escola a escola. Só assim será possível reduzir as retenções sem agravar ainda mais um problema que já é grave.

3za disse...

Pois, Idalina... Não sei o que se passa na cabeça destes senhores tão apressados em tirar conclusões sempre à custa do mesmo. Parabéns! Beijinhos

Paideia disse...

Herr, então e o teu blogue, anda?
José Luís, pois, enterro-me em fichas diferenciadas, em testes versão A, versão B e outras.
3za, Oláááááá´! ***

Herr Macintosh disse...

Idalina,

o blogue não irá de vento em poupa mas vai andando aqui com uns posts sempre que arranjo tempo. Está um pouco do género "o blogue que ninguém lê" (mas não lhe posso chamar isso porque já há um com este nome :-( ).

Mário da Silva disse...

Mas será que o Estado (ou mais concretamente a partidocracia que nos governa), e os interesses económicos que os regulam e controlam, querem mesmo que os alunos portugueses sejam inteligentes, pensem por si e tenham cabeça para mais que trolhas, com ou sem diploma?

E os mesmos terão interesse em ter um povo que se interessa por algo mais do que o que se vai passar na próxima telenovela ou o que se passa no clube de futebol A ou B?

Eu parece-me bem que não.