Ao lê-la sentimos um brando deleite,
Como que um repouso para uma mente exausta
Uma história, nem longa, nem lânguida,
Sem mistérios, nem intangíveis
Uma história curta, talvez mesmo curiosa
Que vamos ouvir com natural interesse.
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4:47 p.m.
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6:35 p.m.
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Estátua
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
Camilo Pessanha
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5:32 p.m.
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Um difuso mal estar...
Acompanhou-me durante a segunda parte da semana: não que se repercutisse em mim o mal-estar da SEDES, mas porque o documento produzido é um documento débil, em capacidade de análise e de argumentação.
O que é pena, porque não faz jus à capacidade de intervenção cívica que, há muitos anos, caracteriza a SEDES.
(vozes mais crescidas e avisadas cá da casa sugerem que simplesmente já não tenho idade para "directas": o tempo vai correndo, inexorável)
No relatório da SEDES, nem uma palavra dedicada ao tremendo problema do desemprego e à incapacidade do país em integrar no seu sistema produtivo milhares de jovens que terminam a sua formação. Como é possivel, por esemplo, que haja uma tão grande necessidade de enfermeiros na Saúde e estes tenham que emigrar para terem trabalho.
Para estas pessoas, o mal-estar é mais do que difuso. É mais uma frustração, um mundo de expectativas que a pouco e pouco se desmorona, um golpe mortal na auto-estima, uma revolta, um desespero, uma vida por concretizar.
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12:25 p.m.
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Relendo João e Maria de Chico Buarque de Hollanda, 1977
Entramos no mundo do faz de conta com "Agora eu era o herói E o meu cavalo só falava inglês", sugerido pela forma verbal "era" no passado, em que o sujeito se propõe ser uma personagem masculina, inventando para si um interlocutor: “Era você ”, mais precisamente uma interlocutora: “Além das outras três” e constrói uma narrativa de feitos que justificam o assumir do seu papel de herói-cavaleiro medieval "o meu cavalo", possuidor de um cavalo muito especial:"só falava inglês", como eram os cavalos dos cavaleiros medievais, uma espécie de extensão so seu corpo e do seu espírito, um pouco ao jeito de Luky Luke, ambos transpostos para um cenário de guerra injusta: "Eu enfrentava os batalhões", temporalmente situada no período da Segunda Guerra Mundial, em que os opressores estão bem definidos: "Os alemães e seus canhões"; além do cavalo, o sujeito recorre ainda às suas armas de brincar: "Guardava o meu bodoque" (fisga), assegurando que, além de bom cavaleiro, também é bom companheiro de danças, puxando o tempo da narrativa para cenários mais recentes, alargando as opções da sua interlocutora " E ensaiava um rock Para as matinês".
Este herói, imagina-se também um rei e um juiz do reino da fantasia, das histórias felizes de príncipes e princesas, capaz de impor a sua doce lei:” A gente era obrigada a ser feliz”, e com poder para coroar a sua interlocutora imaginária: "E você era a princesa Que eu fiz coroar".
Apesar de todas estas propostas de sonho e de ilusão,ela parece não estar muito disposta a aceitar as regras do jogo: “não fuja não” e é preciso negociar protagonismos, em que o sujeito da acção se transforma, por sua vez, no seu objecto, assumindo ela agora o seu comando das operações: “Eu era o seu pião o seu bicho preferido”.
De mãos dadas, sugere, serão mais fortes, bastando para tal que, num gesto de inclusividade, o eu e o tu se transformem em nós: “A gente agora já não tinha medo”, ficando a causa deste medo em suspenso e sujeita a interpretações diversas.
Na última estrofe, percebe-se finalmente que o espaço do faz-de-conta “deste quintal” é o espaço possível para a brincadeira, fora do qual o jogo se torna impossível e o sonho se transforma numa realidade pouco feliz: “Era uma noite que não tem mais fim”, sendo a noite o tempo e o espaço da separação, da ausência e da incerteza: ”E agora eu era um louco a perguntar O que é que a vida vai fazer de mim”.
Quando chegamos ao fim da narrativa, ocorre-nos perguntar se quando ele lhe pede "não fuja, não", não estará a recusar-se a acordar do sonho, a abandonar o faz-de-conta, a regressar à realidade para a qual ele parece não querer acordar. (a realidade brasileira dos anos setenta?)
E o que é que isto tem a ver com o construtivismo?
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12:57 a.m.
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When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
W.B. Yeats
Albert Reuss: Woman Reading with Mother-in-Law's Tongue
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9:02 p.m.
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La Mort des Amants
Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.
Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.
Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;
Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
Charles Baudelaire
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2:54 p.m.
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Há sempre alguém que resiste...
O meu amigo António Monteiro Cardoso, o CardoSÃO já aqui fotografado aquando da defesa da minha tese de doutoramento, apresentou ao público, na passada 5ª. feira, o seu último livro Timor na 2.ª Guerra Mundial: o Diário do Tenente Pires .
O livro é uma edição do Centro de Estudos de História Contemporânea de Portugal e foi apresentado pelo Professor José Medeiros Ferreira, no Auditório da Fundação Mário Soares, perante uma audiência entusiástica e muito calorosa a que não faltaram o próprio Mário Soares, amigos e alunos do Cardoso, membros dos consulados australiano e timorense e até a primeira esposa do Cardoso, Ana Gomes.
O tema central é a ocupação japonesa de Timor durante a II Guerra Mundial e a guerra de guerrilhas movida pelas tropas australianas, através da sua lendária Sparrow Force , uma companhia independente que acabaria por ter de se render, em Dezembro de 1942.
Um outro aspecto historicamente muito relevante diz respeito à "neutralidade colaborante" do governo português aplicado ao território de Timor:a administração portuguesa opta por colaborar com o ocupante japonês e seguem-se as rendições,as dissidências dos que não aceitaram ficar nas zonas de protecção.
Monteiro Cardoso resiste também a seguir a história mitológica dos documentos oficiais e dos arquivos de Salazar, consultando um manancial de arquivos e de documentos internacionais, que conjuga com a pungente história do Oficial português,que chega a escrever a Salazar e ao General MacArthur pedindo ajuda e relatando as atrocidades do ocupante japonês em Timor.
Mas a ajuda não chega, nem para ele, nem para o povo Timorense, nem para a Sparrow Force.
O valoroso Tenente morre às mãos do ocupante deixando para a História um diário escrito quase literalmente com o seu sangue.
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8:17 p.m.
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O MP é uma estrutura hierarquizada – é assim que está na lei. Mas não é assim na prática: o MP é um poder feudal neste momento. Há o conde, o visconde, a marquesa e o duque!
Pinto Monteiro, Procurador-geral da República
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6:47 p.m.
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12:41 a.m.
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Ganhei uma prenda
"Por cada dez homens, há uma mulher representada nas enciclopédias. Onde estão as outras nove?" Rebecca Bartholomew
A cuidar deles, naturalmente.
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9:55 p.m.
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Arte Peripoética
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois goles de chá
que o melhor ainda será
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
com que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.
Ary dos SANTOS, 1965
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3:00 p.m.
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6:31 a.m.
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Labels: leituras, reflexão e prática
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4:11 p.m.
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Labels: efemérides, leituras, memória
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9:44 p.m.
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Labels: leituras, professores
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11:07 a.m.
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10:46 a.m.
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Bem lembrar quem bem escreve
O escritor mexicano que nasceu em 30 de Junho de 1939, na cidade do México. Cultivou diversos géneros literários, é criador de uma poesia irónica e límpida, imaginativa e épica. Entre os seus livros de poesia destacam-se:
Los elementos de la noche (1963); No me preguntes cómo pasa el tiempo (1969); Tarde o temprano (1980); Alta traición, (1985);Ciudad de la memoria (1989).
Foi agraciado com vários prémios de poesia como o Prémio Octavio Paz, em 2003, o Prémio Pablo Neruda, em 2004, o Prémio Garcia Lorca, em 2005, entre muitos outros.
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10:29 a.m.
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Labels: leituras, memória, mentes que brilham, preferências, valores
Bem pensar, bem escrever
Antoine de Saint-Exupéry nasceu em 29 de Junho de 1900; foi escritor, ilustrador e piloto fa segunda guerra mundial. Morreu a voar, perto da costa de Marselha, mas o seu corpo nunca foi encontrado.
Dos seus muitos escritos, destaco, naturalmente , O Principezinho, escrito no exílio nos Estados Unidos. Com uma estrutura aparentemente muito simples, mas carregado de simbologias, este seu escrito revela toda a sua filosofia de vida, toda uma reformulação que a vida e a guerra o vão obrigando a fazer dos seus valores.
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12:57 p.m.
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Bem lembrar
Elizabeth Barrett Browning foi uma poetisa inglesa do Século XIX, que faleceu a 29 de Junho de 1861, em Florença.
Era senhora de uma grande erudição, dominava vários idiomas, como o grego, o latim, o italiano, e os seus biógrafos consideram-na uma pessoa genial. Educada em casa, a sua escrita revela extensas leituras, de Shakespeare a John Milton, mesmo ainda antes de ter completado dez anos. Apesar do sofrimento físico que acompanhou toda a sua existência, continuou os seus estudos, do hebraico ao grego clássico.
Dedicou os seus Sonnets from the Portuguese ao seu marido; estes sonetos estão entre os seus melhores escritos.
Um dos seus sonetos:
SONNET #43, FROM THE PORTUGUESE
How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints!---I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life!---and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
Este soneto é tão incrivelmente belo que qualquer tradução incorre no pecado da traição. Os primeiros versos:
Deixa-me pensar
Nas muitas formas que tenho
De te amar
Amo-te de todas as formas
que a minha alma é capaz de conceber...
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12:17 p.m.
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