domingo, maio 04, 2008


Horizontes sem rede


É pequenino e franzino e, no 5º. Ano de escolaridade, já leva 1 ano de atraso escolar. Nada de especial. Afinal, sendo pequeno e franzino, em nada destoa, em tamanho e aspecto, do resto da turma. É traquinas, alegre e brincalhão, como é próprio de um menino da sua idade. Um pouco mais disto, um pouco menos daquilo, nada que a natural diversidade humana não justifique.

A verdade é que, conjugados alguns factores pessoais e familiares, por mais que me esforce por manter as minhas expectativas elevadas - e normalmente consigo-o – o meu feeling profissional de muitas histórias vividas diz-me que este menino tem no seu horizonte uma nuvem negra que se adensa, um risco de abandono escolar precoce, que me põe a pensar nele num domingo à tarde: falta-lhe uma rede.
Uma rede que lhe sustente o frágil equilíbrio das relações familiares, de saúde, que até de saúde oral estamos falando, que lhe estruture a vida e lhe dê um sentido, um rumo, uma saída, uma perspectiva, um esquema procedimental treinado e activado, que o organize em torno de um projecto.
É preciso sempre começar por algum lado, mas com uma rede inexistente ou com uma teia tão inexistente ou mal montada, mal se vislumbra por onde começar, o que accionar, e cada dia que passa é sempre mais tarde.
Alguém tem de começar: a escola, a médica de família, os serviços sociais – alguém tem que ajudar esta família e este menino: nenhum de nós se pode já desculpar com os outros.

Quem ajuda aquela família a organizar-se? E contudo, a parte mais visível do fracasso deste projecto de vida vai sempre ser o fracasso da escola.

3 comentários:

ana paula pinto disse...

É verdade que não nos podemos desculpar com a omissão de outros, mas onde estão eles quando é urgente a sua colaboração.
Em vinte e cinco anos de carreira, com investimento em experiências como o PEPT 2000, pergunto-me onde está a tal rede que devia articular os esforços de todos os que são responsáveis pela segurança e bem-estar das nossas crianças e jovens.
É com intensa revolta que continuo a ver o que (não) acontece para apoiar e garantir a integração e o sucesso dos mais frágeis.
Há alguns anos tive oportunidade de observar um caso de sucesso.Dois irmãos, após uma série de vicissitudes,foram acolhidos pelo pai, que não conheciam, a 300km da instituição que os acolhia.O mais velho começou a frequentar a minha escola e a Técnica responsável pelo seu acompanhamento contactou regularmente, durante um certo período de tempo, a DT e deslocou-se de Lisboa ao norte para observar como decorria a vida familiar e escolar dos dois jovens.
Passaram cerca de cinco anos e os dois jovens estão felizes, equilibrados e têm sucesso escolar.
Todos os intervenientes cumpriram o papel que lhes cabia.
Penso muito neles para acreditar que é possível!

ana paula pinto disse...

Peço desculpa por voltar, mas ocorreu-me a propósito deste assunto a canção "movimento perpétuo"dos Deolinda O humor é uma arma eficaz. Se não a conhecer pode ouvi-la em
http://www.myspace.com/deolindalisboa

Paideia disse...

Volte sempre: significa que as minhas cogitações de domingo dizeram eco.
:)