domingo, outubro 22, 2006

(Outros papéis sociais: o de tia)

Paul Dixon, 29 anos, o meu sobrinho mais velho, comandante militar no Iraque

(Na opinião da tia, tem vocação para historiador - já sabem como são as tias: têm opiniões sobre tudo - por influência do pai estudou numa selecta academia militar da Carolina do Sul)

Uma crónica do Iraque

"Hey all
Just a quick hello from the desert. Except I'm not really in the desert, per se. More like an urban landfill. Hmm..sounds appealing, huh? So not much to report really. I stayed inside the wire yesterday and I pulled security for another team today. That was fun, but uneventful. I pretty much just stayed up in the gun of the humvee and watched as little kids tried to get us to give them something, anything. The first thing that they always ask for is a football (ok, they actually want a soccerball, but like we all know they call it a football). After that they will ask for chocolate (which we never carry because, hello, it's over a hundred degrees and the stuff melts). Then they'll ask for money. Nope, sorry, I am not giving ANYONE other than my wife money...except for bill collectors...and even then it's at my discretion. If they can't get those things they'll ask for beanie babies or pens. They really don't care what you give them as long as you give them something. The problem is, if you give 1 kid something, a dozen more will come up asking for stuff. We've litterally had HUNDREDS of kids swarm us asking for stuff. So we've learned not to give anything out until we are readdy to roll away. Then we have the gunners throw stuff to the side so we don't run anyone over. Also, I don't remember if I've mentioned this before, but there are no traffic laws over here. It is nothing to see cars going the wrong way down highways and main roads. Or coming up the wrong way of an on/off ramp. Of course, we rule the roads. We get people out of our way in a hurry so we can keep moving. Another thing with this is that these people DO NOT pay attention. We can be blasting our police sirens and they won't notice until we are on their bumper. They don't look to their right and left when crossing the intersection. The mentality is "An shllah" which translates to something to the effect of "god willing". This mentality permeates the Arab culture. If something happens, good or bad, it's because Allah willed it so.
So if they get T-boned by a Mack truck, it isn't because they weren't paying attention to the roads, it's because Allah wanted it to happen. This is also how they deal with time and deadlines. We (Americans) live by timelines. Reports are due at a certain time, we show up for work at a certain time, a lot of things are regimented according to time. Not so with these guys. It's ALWAYS "An shallah". So if you set up a meeting at 1000 one day, they will ALWAYS say "An shallah" and more likely then not show up an hour late, if at all. Makes it kinda frustrating for us sometimes. Of course, us Southerners are better able to deal with this, but them Damn Yankees throw a fit when this happens, especailly those from New York City. Well, that's just a little insight of some of the cultural stuff over here.
I hope each and every one of ya'll is doing well. Make sure ya'll are enjoying those temperate summer days over there. Yeah, 90 degrees is REALLY hot....jackasses...sorry, I might be a little bitter. It's supposed to get above 110 and keep climbing to 121 next week. Anyway, ya'll take care and be good! Love, Paul"
Reflectindo sobre as "issues" interculturais em pleno teatro de guerra, anh?! Fleumático qb (influência paterna?) com uns "fireworks" latinos, cá dos nossos lados. Cliquem ali na foto e vejam lá se não há uns traços de nariz-boca próximos cá da tia. I HATE this war. Nothing personal, obviously... I just can't stand watching our baby in the middle of HELL.

Jean Piaget, 1896-1980
Quando vou ao Gabinete da minha Profinha, lá está a figura simpática e tutelar. Por hoje, ficarei por esta nota. Far-lhe-ei uma visita um dia destes. Tomaremos chá e scones, falaremos de meninos e de como lamentou não ter conhecido Lev Semionovitch Vygotsky: Jean Piaget.


Um texto que publiquei no nº. 3 da revista PSICOLOGIA, de Maio de 2006. Um abraço grande para toda a equipa pelo excelente editing que acompanhou o artigo.


Síndrome de Asperger


Sou professora do 2º ciclo e fiquei hoje a saber que no próximo ano lectivo vou ter um aluno com síndrome de Asperger.

A minha carreira já vai longa e sempre tive uma tendência e um carinho muito especial por crianças “diferentes”. Fiquei a conhecer há pouco tempo as características da síndrome de Asperger, através de um livro de Tony Atwood que uma grande amiga anda a traduzir e que, segundo ela me informou, será brevemente publicado em Português. Ajudei-a a rever alguns capítulos e fiquei fascinada. E também surpreendida: dos meus mais de 30 anos de serviço, lembrei-me de algumas crianças, sobretudo rapazes, que no Conselho de Turma nunca conseguimos perceber muito bem. Não foram muitos, é certo. Percorri-os mentalmente, um a um e conclui que, das mais de 2000 crianças que por mim passaram e por quem passei, seis delas, se à altura houvesse instrumentos de diagnóstico adequados, seriam seguramente sinalizadas como portadoras da síndrome.
Lembro-me do Tó, por exemplo, um miúdo pequenino e moreno que, nos dias mais difíceis, varria com o braço todo o material do colega de carteira e atirava tudo ao chão – bendito Francisco, sempre tão paciente com ele. Começava então um longo processo de negociação, que conduzia, com mais ou menos custo, à recolha partilhada dos objectos espalhados, sempre acompanhada de um discurso bem articulado, mas pobre em termos de interacção.
Um dia, o meu colega Celestino, professor de Ciências da Natureza e paleontologista entusiástico, organizou na escola uma exposição sobre dinossauros. Combinámos, a turma e eu, uma visita à mesma. Para grande espanto nosso, o Tó sabia tudo sobre dinossauros: aquela figurinha de 10 anos era uma enciclopédia ambulante. De súbito, pára diante de uma peça e exclama: «Ò setor Celestino, esta peça é do museu da Lourinhã, não é?» … «Pois, é que eu já a vi lá…». Apanhava grandes tareias no recreio, mas preferia-as à solidão; isto, quando não lhe dava para ficar sozinho a um canto do pátio, remoendo diálogos imaginários.
As pessoas com síndrome de Asperger (AS) têm uma personalidade única, com manifestações muito específicas; é por isso que nós, os professores, temos tantas dificuldades em avaliar e sinalizá-las; por isso, também não existe uma receita única, em termos de abordagem educacional. São muito sensíveis às pressões ambientais, muito ritualistas, têm tendência a resistir a mudanças, ainda que mínimas. Os seus medos obsessivos são fonte de stresse e de sobrecarga emocional. Têm dificuldade em entender as regras do convívio social, são consideradas egocêntricas e manifestam grande ingenuidade social. O tom de voz é geralmente monocórdico ou mesmo estridente, olham-nos fixamente, não entendem a linguagem gestual, dão a impressão de terem alguma insensibilidade táctil e podem até não gostar do contacto físico.
Sinto-me mais preparada para o ajudar a adaptar-se à nova escola, a gostar de cá estar e de aprender. Vou procurar explicá-lo às outras crianças e elogiá-las quando o tratarem bem, vou valorizar os seus interesses e capacidades – procurar, enfim, que ele seja bem aceite. Como sei que estas crianças gostam de ter amigos, mas têm dificuldade em fazê-los, vou procurar que ele aprenda algumas regras de convívio que os outros entendem de forma intuitiva, incentivar o seu envolvimento com outros, encorajá-lo a participar das conversas.
Olhando assim, em retrospectiva, estes meninos com síndrome de Asperger terão sido os que, na minha carreira, menos compreendi e por isso, menos amei e menos ajudei.
Agora que compreendo melhor a síndrome, vou ouvir os pais com muita atenção para recolher informação que certamente vai ser preciosa, para que ele se adapte à nova escola e goste de cá estar e de aprender. No próximo ano lectivo vou aprender com este menino, vou procurar ajudá-lo e crescer com ele, como professora e como pessoa.

PS: Nesta história há apenas dois nomes verdadeiros: o de quem escreveu a crónica e o do Dr. Celestino Coutinho, professor da EB 2+3 Joaquim de Barros, em Paço de Arcos, a quem presto homenagem pela sua imensa dedicação à profissão e à paleontologia.


Premonições?


Outras falas (outra intervenção em diálogo com o Prof. Albano Estrela, colocada no sítio Educare em 23 de Setembro de 2006)

Era uma alegria voltar à Escola, naquelas manhãs solarengas de Setembro e repetir os nossos rituais, com um olhar mais fresco e repousado e o Sol do Verão a teimar-nos na pele. O C.E. prepara sempre um ppt em que faz o balanço do último ano e, implicitamente, traduz, aos que estão e aos que vêm de novo,o NOSSO Projecto, o NOSSO crer a NOSSA vontade. É uma mensagem forte e arrebatadora, as Nossas caras, os Nossos rostos, de alunos, profissionais e pais que, por sistema, acaba em palmas. No início deste ano lectivo a tradição não quebrou - palmas soaram - já o convívio, no pátio, entre árvores, flores e um fresco repuxo me pareceu menos vivo - ah! Maluquices tuas, Idalina, deixa, estás de volta à tua escolinha linda, comentaram os botões... Mas não - os professores - embora mantendo o seu profissiononalismo, o seu empenho, a sua dedicação, que estão na essência da cultura desta Escola - esses, estão mais tristes, menos confiantes, mais acabrunhados. Idalina Jorge, Oeiras 23-09-2006


Resposta a um desafio do Professor Albano Estrela sobre o poder da palavra
Vários atributos pertencem à natureza mais intrínseca da nossa profissionalidade. Um deles é o da contínua invenção da roda - O fluir das gerações obriga-nos constantemente a repensar princípios, práticas, procedimentos, de forma que chega ao paroxismo, como verifico actualmente, após algum tempo de ausência para o meu doutoramento. Um outro é o da essencialidade do Verbo - é ele que sustenta uma reprimenda que nos remete à essência do educere tal como o cumprimento, o elogio, o prazer autêntico da descoberta, um novo feito, outro melhor de nós mesmos. Eles ouvem, eu acredito que eles ouvem, não apenas a palavra, mas a voz do nosso pensar, sentir, do nosso gosto (ou desgosto) de estar com eles. Como diz a minha Prof., eu tenho mentalidade de professora do básico, mas gosto de ser assim, pequenina. Quando eles pedem colo, eu dou, quando me apetece chorar, eles dizem: A prof. está triste - e mimam-me. Idalina Jorge, Oeiras20-09-2006


Profissão docente, caciquismo e prática

Conhecemos a tradição caciquista do nosso País: é dos anais e é tema de grande literatura. A Lei prevê mecanismos de correcção para diversos cargos políticos e administrativos a nível local e central.
Todos sabemos que, no caso das administrações escolares:
1. Os cargos constituem frequentemente meros trampolins para funções autárquicas, sobretudo nos professores do sexo masculino.
2. O afastamento do quotidiano da sala de aula destreina os professores das dezenas de microdecisões das mais diversas naturezas, designadamente de natureza pedagógico-didáctica que é necessário tomar a cada instante. Além do mais, a relação entre o director da escola e o jovem estudante não é da mesma natureza que a relação professor-estudante e efectua-se geralmente de um para um.
O Estatuto da carreira docente deveria prever que os cargos de gestão e administração escolar pudessem ser exercidos por tempo limitado (seis anos são geralmente suficientes para conceber e pôr em prática um projecto educativo), após o qual deveria ser obrigatório o retorno à docência, pelo menos durante dois anos consecutivos. Nada disto parece estar previsto.


There will come soft rain and the smell of the ground,
And swallows circling with their shimmering sound;
And frogs in the pools singing at night,
And wild plum-trees in tremulous white;
Robins will wear their feathery fire
Whistling their whims on a low fence-wire;
And not one will know of the war, not one
Will care at last when it is done.
Not one would mind, neither bird nor tree
If mankind perished utterly;
And Spring herself, when she woke at dawn,
Would scarcely know that we were gone.

Sarah Teasdale
Femme à l'ombrelle avec enfant, Monet, 1875


A todo(a)s o(a)s colegas e companheiro(a)s que colaboraram no meu outro blogue e que, particularmente na última semana, me manifestaram a sua simpatia e solidariedade.

Eu estou bem. Muito bem. Com a tensão mais alta, mas bem. Decidi acabar com o outro blogue, já me andava na ideia há tempos, por duas razões:
A primeira: o nome do blogue era sexista; na realidade a profissão é exercida tanto por homens como por mulheres. Se eu sou anti-sexista para um lado, tenho que ser coerente: um título que fala da profissão só no feminino não é justo.
A segunda: cada vez mais sinto a necessidade de voltar aos velhos conceitos de educere e de paideia. Como tive de optar por um deles para o título do blogue e como costumo escrever no espaço educare, que é ainda outra coisa, para os que sabem latim, optei pelo conceito grego.
Eu sou uma acérrima de Vygotsky:antes de ser já o era e mesmo que a minha tia-avó Maria, que era professora diplomada, não quisesse sê-lo, as próprias condições de trabalho a obrigariam a ser, pelo menos na zona próxima do desenvolvimento, de um modo ou de outro. Aliás, pese embora a muito respeitada e douta opinião do Professor Orlando Lourenço sobre as diferenças epistemológicas incontornáveis entre Vygotsky e Piaget, tenho para mim que, se naquele tempo os meios de comunicação fossem mais eficientes, os Mestres se teriam encontrado, discutido e muito disparate posterior teria sido evitado em matéria de teoria educativa.
Durante a preparação do meu doutoramento, comecei a ler teses portuguesas com grandes notas de rodapé acerca do termo "scaffolding", como um conceito transcendentemente intraduzível. Como? Desculpem? Terão ideia de como a língua inglesa foi enriquecida por via latina, designadamente, ali pelos tempos de Shakespeare e de Lord Bacon? Detesto notas de rodapé. O termo inglês é posterior a Vygotsky, não o consegui encontrar em nenhum dos seus escritos, cujas traduções mais recomendadas seleccionei e adquiri. Um dia, mandei um mail ao director do Instituto Vygotsky russo, que se fartou de rir (emoticons) com a minha tentativa de tradução russa de "scaffolding": que tinha a ver com tijolos. Isso sei eu, ó Professor. Em Inglês também! Mais emoticons de gargalhada. Há dias, ouvi de uma pessoa de quem aliás gosto muito, uma tentativa de tradução: andaimar. Andaiquê, J.? Vê lá se cai uma barra de ferro na cabeça da criança! Por enquanto quem paga é o Seguro Escolar, mas tu vê lá no que te metes. Então, mas ele há metáfora mais linda que educere? Deixem-se de tretas.
Tios Pi e Vy, avé!

Lev Vygotsky (1896-1934) "o Mozart da psicologia"

Greve, dia II: confirmação

"Vai-te embora porca, que hoje é dia de greve dos professores" – esta foi a frase que me acolheu pela manhã, já no recinto escolar.
Bom, reflicto com calma, tenho 54 anos, síndrome metabólico, quiçá decorrente da minha vida sofrida, por muito que malhe duas horas por dia estou com excesso de peso, mas tenho muito cuidado com a minha aparência: visto-me e penteio-me com cuidado, maquilho-me a condizer. Porca, porca, não hei-de parecer…
Volto-me fleumaticamente para o jovem: já mais alto que eu (não é preciso muito, admito) bonito, moreno, esguio, muito “morangueiro”. Identifico-me primeiro – cumpro praxes que não estando escritas deviam estar – e, sem sinal de censura ou zanga, peço-lhe a sua identificação; recusa-se arrogantemente por diversas vezes. Solicito-lhe o cartão de aluno. Perante a minha insistência serena, mas firme, lá acede contrafeito e com maus modos: Tome lá! Chego à sala de professores e peço ao Presidente que o admoeste. Desata aos gritos (donde é que eu conheço este padrão de homens a gritarem com mulheres? Será de Marte? Sim, é verdade, eu sou marciana!) O cavalheiro há anos que não lecciona e leccionar obriga-nos a tomar dezenas de microdecisões da mais diversa natureza a cada instante, e aos gritos me diz que participe por escrito.
Respondo que sim senhor, que nisto das interacções, quem grita é porque tem razão, e retiro-me para a minha aula, durante a qual tenho interrupções várias de alunos que abrem, fecham, dão murros nas portas, gritam, tal e qual como em Marte e nos países europeus que visitei particularmente ou ao abrigo dos programas europeus de mobilidade docente.
Voltando o “moranguinho” – lá fiz a participação por escrito e lá disse ao Presidente, em público, e com voz pausada, que não voltasse a gritar comigo. Que não era bem gritar, argumentou, que era assim como que o seu “modo de falar”… “Então…”, retorqui “peço-te que comigo mudes o teu modo de falar, sim?” e retirei-me.
Devo dizer que o jovem já me pediu desculpas e que eu já as aceitei; e que também já me veio pedir que retirasse a queixa, ao que eu lhe respondi que a retirarei quando o Presidente mo pedir por escrito.
Agora pergunto: porque é que há jovens que, dentro das Escolas, dão murros nas portas, se passeiam pelos corredores como hordas, dizem palavrões e chamam nomes às professoras? Será que eu tenho um cérebro de 4 anos? Houve quem dissesse - e eu acredito - que tudo se pode ensinar a uma criança, desde que o seja feito de uma forma intelectualmente honesta. Ora, sou toda ouvidos!

Greve, dia I: hipótese

Não vou fazer greve. Perdi o meu pai aos 8 anos, empobreci, como acontece com a maioria das famílias a quem o pai falta, fui vítima de tentativa de abuso intrafamiliar não consumado devido à minha firmeza, trabalho desde os 15 anos, tenho um filho deficiente, fiz estágio de barriga, com 26 anos, tive a nota máxima, morava em Bobadela, efectivei-me no Alentejo, fui lá "bater com os costados", levei comigo o meu filho de 18 meses, sempre doente, o meu marido ficou em casa, fazíamos um amor sedento e desesperado ao fim de semana, enquanto as casadinhas com militares que tiveram 12 de nota de estágio ficaram ao lado da casinha, o Jorge punha-me a cassete “Ne me quitte pas” quando nos ia levar à camioneta para o Alentejo, depois fiz uma pós-graduação em ensino especial, tinha a minha Inês três anos, depois fiz mestrado e depois doutoramento com o meu filho doentíssimo e estou na escola que é o lugar dos professores. (Certo?!?)
No dia da greve fiquei na escola praticamente todo o dia, ofereci-me para ajudar a Comissão Instaladora nalguma tarefa. Como não fui necessária, conversei com o meu “velho” companheiro J., que estava de greve e também passou o dia na escola. Pleiteámos muito sobre a Escola, umas vezes concordámos, umas vezes discordámos, rimos muito, pensámos muito, ele perdeu uns tostões para o Estado, o que eu vou fazer com os meus não se publica (segundo as leis de Deus), mas nisso vou ganhar-lhe porque os meus tostões vão ser muito mais úteis. Bem feita, J., toma, toma!
O facto de não ter feito greve não significa que seja acrítica nem me impede de reflectir sobre os efeitos nefastos da desacreditação dos professores a que a Sra. Ministra se tem dedicado.
Vejamos alguns conceitos tradicionalmente associados à imagem do professor e que foram identificando a sua profissionalidade:
A imagem ligada ao espírito Socrático e à sua melhor descendência em termos didácticos e pedagógicos: “tudo pode ser ensinado, desde que o seja de forma intelectualmente honesta”; a imagem do professor que tem verdadeiro gosto pela sua profissão e se dedica à educação da juventude; o apaixonado pelas matérias que ensina e que consegue transmitir esse gosto aos seus discípulos; o que conhece os padrões do desenvolvimento humano e utiliza esse conhecimento para tornar o ensino e a aprendizagem produtivos e interessantes; o professor controlador e controlado que, nos casos mais extremos, se tornou num estereótipo ligado a certas correntes que deixaram na História marcas sangrentas e que pode tornar-se auto-destrutivo, porque dificilmente produzirá uma figura inspiradora e geradora de criatividade e gosto de aprender.
O que a Sr. Ministra fez foi retirar aos professores a autoridade natural que lhes deve ser reconhecida enquanto adultos cuidadores da juventude, esse cuidado que resulta da fusão de dois conceitos essenciais: o educere latino e a paideia grega.
É como se, de repente, se gerasse um movimento de haraquiri social, de fazer passar aos jovens que as figuras indispensáveis ao seu desenvolvimento, os seus pais, os professores, os adultos em geral não prestam.
Ora, os jovens necessitam de modelos de adultos dignos, convictos, entusiásticos, saudáveis, consistentes, dedicados, bem-humorados, enérgicos e com auto-estima, tudo o que a Sra. Ministra retirou ou negou aos professores.
Hipótese: As consequências nas Escolas de fazer passar uma imagem de professores preguiçosos, incompetentes e pouco dedicados foram e serão terríficas.